Azáfama; grande atividade; agitação; rebuliço.

08
Nov 08

"A história passada de Ivan Ilitch fora a mais simples e vulgar e por isso a mais horrível. Morrera aos quarenta e cinco anos de idade, como juíz desembargador. Era filho de um funcionário que em Petersburgo fizera, em vários ministérios e departamentos, a carreira que leva os homens a uma posição em que, embora se perceba claramente que não servem para desempenhar qualquer cargo importante, não podem em todo o caso, devido ao longo serviço passado e à sua categoria, ser demitidos e por isso obtêm cargos fictícios inventados e salários nada fictícios de milhares, de seis a dez, com os quais vivem até avançada idade".

TOLSTOI, Lev (1886) A Morte de Ivan Ilitch

publicado por polvorosa às 15:06
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13
Out 08

"Dá-me prazer imaginar um Estado que possa finalmente fazer inteira justiça aos homens e tratar os indivíduos com respeito, como os vizinhos entre si. Sem se convencer que atentam contra a sua tranquilidade os homens que dele se distanciam, os que não se intrometem nos problemas dele, os que não se deixam dominar por ele, os que cumprem todos os deveres da boa vizinhança e da boa camaradagem. Um Estado que fosse capaz de produzir esse fruto e concordasse em deixá-lo cair no chão assim que ele estivesse maduro abriria caminho a um outro Estado ainda mais perfeito e glorioso, que eu por sinal também já imaginei, mas que ainda não encontrei em parte alguma". 

THOREAU, Henry David (1966) A Desobediência Civil

publicado por polvorosa às 23:11
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01
Out 08

"Agora tudo estava em ordem. A não ser que houvesse nova contagem. Estes parasitas eram uns imbecis de tal ordem que contavam pior que os pastores. Apesar de, na sua maioria, não saberem ler nem escrever, os pastores apercebem-se muito bem da falta de uma ovelha do rebanho quando lhes parece que falta alguma. E estes parasitas haviam sido treinados, instruídos. Pelo que se via, tinham aproveitado muito".

SOLJENITSIN, Alexandre (1962) Um Dia na Vida de Ivan Denisovich

publicado por polvorosa às 22:13
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27
Set 08

"Acordei com estrelas sobre o rosto. Subiam até mim ruídos campesinos. Aromas de noite, de terra e de sol refrescavam-me as têmporas. A paz maravilhosa deste Verão adormecido entrava em mim, como uma maré".

CAMUS, Albert (1942) O Estrangeiro

publicado por polvorosa às 00:43
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23
Set 08

 

Esta semana são apresentados dois novos livros. O livro "Reformas da Saúde - O fio condutor" do ex-ministro António Correia de Campos onde explica as suas medidas políticas e o seu pensamento para o sector da saúde em Portugal, indica também porque aconteceu a sua demissão e já foram duas. Será que as populações não o percebem ou será o inverso? De qualquer dos modos julgo haver aqui uma incompatibilidade crónica entre um estudioso e técnico cheio de mérito e comunidades onde acima de tudo impera o NIMBY (Not In My Back Yard), isto quer dizer, "sim sr. isso é muito importante façam lá isso, mas não no meu quintal). Este conceito é muito importante porque estamos sempre todos a falar em reformas, medidas e mudanças, mas quando elas nos afectam directa e pessoalmente já não interessam nada.

 

 
Também nesta semana, o ex-Presidente do P.S.D. Luís Marques Mendes (L.M.M.) apresenta o livro "Mudar de Vida". Mostra a visão e o programa de LMM para Portugal, não precisou de uma empresa de comunicação para o fazer. L.M.M. é uma pessoa inteligente, gostei quando afastou do P.S.D. arguidos com processos em tribunais como fez em Gondomar e Oeiras. Teve problemas no interior do PSD porque a ala mais populista correu literalmente consigo, alguma dificuldade em lidar com o período mais popular de Sócrates, para além da dificuldade na imagem infelizmente cada vez mais importante no espectáculo mediático das aparências. Agora que já está reformado pelo parlamento, sorte para a aventura no sector energético. 
publicado por polvorosa às 21:36

15
Set 08

"Sento-me aqui nesta sala vazia e relembro. Uma lua quente de Verão entra pela varanda, ilumina uma jarra de flores sobre a mesa. Olho essa jarra, essas flores, e escuto o indício de um rumor de vida, o sinal obscuro de uma memória de origens. No chão da velha casa a água da lua fascina-me. Tento, há quantos anos, vencer a dureza dos dias, das ideias solidificadas, a espessura dos hábitos, que me constrange e tranquiliza. Tento descobrir a face última das coisas e ler aí a minha verdade perfeita. Mas tudo esquece tão cedo, tudo é tão cedo inacessível".

FERREIRA, Vergílio (1959) Aparição

publicado por polvorosa às 21:54
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02
Set 08

"A mulher aproxima-se da grade de ferro, põe-lhe as mãos em cima e sente a frescura do metal. Não podemos perguntar-lhe se ouviu os dois tiros sucessivos, jaz morta no chão e o sangue desliza e goteja para a varanda de baixo. O cão veio a correr lá de dentro, fareja e lambe a cara da dona, depois estica o pescoço para o alto e solta um uivo arripiante que outro tiro imediatamente corta. Então um cego perguntou, Ouviste alguma coisa, Três tiros, respondeu outro, Mas havia também um cão aos uivos, Já se calou, deve ter sido o terceiro tiro, Ainda bem, detesto ouvir os cães a uivar".

SARAMAGO, José ( 2004) Ensaio sobre a Lucidez

 

publicado por polvorosa às 22:19
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26
Ago 08

Diabo - Acalme-se lá, homem. Como é que veio cá parar?

Corrupto (recompondo-se) - Acho que foi do coração.

Diabo - Não é isso, criatura, o pecado...

Corrupto - Corrupção?

Diabo - Está a brincar! Ninguém vem cá parar por isso.

Corrupto - Pois, eu também achava que não.

Diabo - Nacionalidade?

Corrupto - Português.

Diabo - Não pode ser. Agora tenho a certeza de que deve haver aqui um engano. Li há tempos no jornal de um finado da sua terra uma coisa do género: "Corrupção na política? As suspeitas são muitas, os julgamentos alguns, mas os presos nenhuns".

Parecia um verso.

Corrupto - E quem é que lhe disse que eu sou político?

Diabo - Pois tem razão, eu e os meus clichés.

MORGADO, Paulo (2007) O Corrupto e o Diabo

publicado por polvorosa às 22:38
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21
Ago 08

"Shukhov adormeceu completamente satisfeito, feliz. Fora bafejado por vários golpes de sorte durante aquele dia: não o haviam posto no xadrez; não tinham enviado a brigada para o Centro; surripiara uma tigela de kasha ao almoço; o chefe da brigada fixara bem as rações; construíra uma parede e tirara prazer o seu trabalho; arranjara aquele pedaço de metal e conseguira passá-lo; receberá qualquer coisa de Tsezar, à noite; comprara o tabaco. E não caíra doente.

Um dia sem uma nuvem carregada, sombria. Quase um dia feliz.

Contava já no seu activo três mil seiscentos e cinquenta e três dias como este. Desde o primeiro até ao último toque na barra de carril.

Os três dias suplementares pertenciam a anos bissextos".

SOLJENITSIN, Alexandre (1962) Um Dia na Vida de Ivan Denisovich

 

publicado por polvorosa às 00:19
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13
Ago 08

"Chamam-te "Zé Ninguém!", "Homem Comum" e, ao que dizem, começou a tua era, a "Era do Homem Comum". Mas não és tu que o dizes, Zé Ninguém, são eles, os vice-presidentes das grandes nações, os importantes dirigentes do proletariado, os filhos da burguesia arrependidos, os homens de Estado e os filósofos. Dão-te o futuro, mas não te perguntam pelo passado".

REICH, Wilhelm (1945) Escuta Zé Ninguém

 

publicado por polvorosa às 22:48
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31
Jul 08

"Não mataste o peixe só para viver e vendê-lo para ser comido. Mataste-o por amor próprio e porque és um pescador. Amáva-lo quando estava vivo, e ama-lo depois de morto. Se o amas, não é pecado matá-lo. Ou será mais?".

HEMINGWAY, Ernest (1952) O Velho e o Mar

publicado por polvorosa às 22:18
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29
Jul 08

"Quando o rapaz voltou, o velho adormecera na cadeira e o sol pusera-se já. O rapaz tirou da cama o velho cobertor da tropa e lançou-o sobre as costas da cadeira e os ombros do velho. Eram ombros estranhos, ainda fortes apesar de muito velhos, e o pescoço era ainda forte também e as rugas não tão evidentes quando o velho dormia e a cabeça lhe pendia para a frente. A camisa dele havia sido remendada tantas vezes que era como a vela, e aos remendos o sol os desbotara matizadamente. A cabeça do velho era, porém, muito velha, e de olhos fechados, não havia vida no rosto".

HEMINGWAY, Ernest (1952) O Velho e o Mar

publicado por polvorosa às 22:46
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