Azáfama; grande atividade; agitação; rebuliço.

09
Set 12

Ricardo, 33 anos, desempregado, à espera que morra a esperança



Não estranhem se me rir. Faço por rir, porque os meus filhos andam por aqui e pressentem tudo. Pedem-me para jogar à bola, para me sentar no chão a brincar, e eu faço por sorrir. Valha-nos isso – eles não entenderem. Principalmente o que pensam as pessoas que acham que somos dois irresponsáveis por sermos professores a contrato e, mesmo assim, termos tido estes filhos, sem pensarmos que um dia podia acontecer o que agora aconteceu: ficarmos os dois desempregados.

O mais esquisito é que isso nos embaraça. Como se tivéssemos falhado — aos filhos que nos achámos no direito de ter; aos nossos pais, que investiram nos cursos que fizemos; aos irmãos, para quem passámos a ser uma preocupação; e até aos amigos que necessariamente falam de nós: “Os dois desempregados, como é que vai ser?”

Acho que não, não fomos irresponsáveis. Estávamos apenas a ensinar, que era o que gostávamos de fazer, e nunca pensámos que as coisas ficassem tão difíceis. Damos aulas há dez anos, casámos há oito e temos estes dois rapazes, um de quatro, outro de dois anos. Pedimos um empréstimo para comprarmos um T3 usado num terceiro andar sem elevador — e pronto, estes foram os nossos luxos.

Ainda conseguimos poupar para um pé-de-meia, que é a única coisa que nos permite respirar desde que vimos a lista dos professores contratados e percebemos que estávamos na outra, dos desempregados. Eu dou aulas de EVT, a minha mulher ao 1.º ciclo. Damos, quer dizer: dávamos. Eu não vou conseguir voltar a dar aulas — tenho a certeza, apesar de ainda não ter conseguido matar completamente a esperança, que é o que me provoca este nó na garganta.

Custa-me falar nisto. Mas se tiver sido o ultimo ano — e acho mesmo que foi — acabei a carreira na escola em que estudei e em que percebi que queria ser professor de Trabalhos Manuais, graças a outro professor que agora é o director dessa escola e que não se lembrava da minha cara, mas reconheceu o boneco de madeira articulado que fiz nas suas aulas, tinha eu uns dez anos. ‘Eh, pá! Guardaste isso?’ Pois guardei.

Já fomos ao centro de emprego e agora temos de decidir o que fazer. Trabalhar num escritório, na caixa de supermercado, abrir um negócio? Nem quero acreditar que não vou ser professor. Tenho de decidir, mas primeiro tenho de deixar morrer a esperança que, para já, não me deixa pensar.

Cristina, 47 anos, professora a tempo inteiro, mas com horário zero



Costumo dizer que o lugar dos problemas é debaixo do tapete, que fica do lado de dentro quando saio de casa e do lado de fora quando entro nela. Mas às vezes tenho quebras, claro, e a minha filha, que está a entrar na universidade diz: ‘Oh, esquece a escola! Daqui a três anos já tenho o curso e posso trabalhar e ganhar dinheiro para ti!”.

Rimos as duas. E, por causa do riso, fico a pensar que tenho muita sorte por os ter, a ela e ao meu marido. Os meus colegas que também ficaram com ‘horário zero’ e que viviam principalmente para a escola ou até mesmo só para a escola — e acreditem que há gente assim — estão doentes de tanto desalento.

Não é o dinheiro. É termos 20 anos de serviço, saber e tarimba e sentirmos que não há lugar para nós. É vermos os colegas a queixarem-se de que têm muitas turmas e muitos alunos e nós não termos. É sabermos que eles têm razão para se queixarem e sentirmos que, apesar disso, preferíamos estar no lugar deles.

No ano passado, estive a dar aulas em Coimbra, mas, por causa das tais medidas (a revisão curricular, as turmas maiores, etc.), fiquei sem alunos e puseram-me em concurso para destacamento por ausência da componente lectiva. O problema é que, quando no ministério se foi ver, em Agosto éramos milhares a ganhar sem fazer nada. Tantos que até podíamos encher a Avenida da Liberdade, em Lisboa, e isso é que não — não é? Toca, então, de mandar aos directores uma circular a dizer que afinal era para nos tirarem do concurso e para nos ocuparem com qualquer coisinha. Foi o que fez a direcção da escola onde eu estou efectiva, em Montemor-o-Velho. Isto já era mau, mas o pior é que entretanto surgiu uma vaga na escola de Coimbra, mas como eu já tinha sido “repescada” para não fazer nada em Montemor, essa vaga não foi ocupada por mim, mas por outra colega menos graduada. Faz sentido? Pois não.

Ao menos que fosse a bem do país, que não é. O Governo não poupa dinheiro, paga-nos o mesmo. Só que é para desenvolvermos “iniciativas de prevenção do abandono e de promoção do sucesso escolar”, coisa que ninguém sabe o que é. O que, de qualquer maneira, tem pouca importância. Ainda que soubéssemos, ficávamos na mesma, já que o Governo puxa em sentido contrário — compromete o sucesso e promove o abandono escolar, que é o que acontece quando se fecham professores esgotados em salas a abarrotar.

Conceição, 58 anos, em fim de carreira e, apesar de tudo, sem direito à queixa



Em Julho chorei com colegas e amigos de uma vida que ficaram com horário zero; agora angustio-me com os professores que orientei em estágio e que ficaram sem trabalho. Por isso, só posso dizer que não tenho direito à queixa. Mesmo em relação ao congelamento da carreira e ao corte do vencimento e dos subsídios — não tenho, porque há quem esteja pior. Mas tenho o direito à palavra, claro, e digo que, com isto tudo, só por milagre a qualidade da escola não continuará a baixar.

Não estamos a assistir a uma revolução, não é uma desgraça que agora se abateu sobre nós. É mais uma fase num processo de degradação que começou há uns sete anos, com a destruição da imagem do professor. São estes professores que este ano são apanhados no cruzamento de uma série de factores que tornam mais difícil a sua missão, que — às vezes parece que alguns se esquecem — é ensinar.

Quem tem uma turma com 30 alunos não pode dar atenção a todos, em geral, e a cada um em particular; quem tem seis turmas não consegue acompanhar 180 projectos de investigação ou levar para casa 180 trabalhos para corrigir. Não consegue. E isso sabe quem dá aulas, por muito que ilustres comentadores que nunca puseram os pés numa sala cheia de adolescentes nos garantam que nos séculos XVIII e XIX os grandes pedagogos ensinavam com inquestionável sucesso grupos de cem estudantes ou mais.

Some-se às turmas de 30 alunos o ensino obrigatório, que fará com que, daqueles 30, alguns não queiram estar na escola. Conte-se com a degradação da autoridade do professor, que contribui para o aumento da indisciplina. E adicione-se o agravamento da crise, que nos últimos anos já tem feito com que, muitas vezes, os professores se reúnam para comprar os manuais que os alunos levam para a sala e até cabazes de alimentos que lhes fazem chegar a casa. Por fim, junte-se a todos estes factores a diminuição do tempo destinado às direcções de turma, que já não chegava para cumprir a parte burocrática da função.

Valha, a alguns de nós, este ano trabalharmos em escolas lindas, onde se gastaram milhões. São “carros de grande cilindrada com estofos rotos”, como dizia alguém. E, ainda assim, tenho fé. Nos professores que são competentes e dedicados e também nos alunos. Como é que hei-de explicar? Não se explica, sou optimista. Ainda acredito em milagres.

Paulo, 39 anos, ficará, com sorte, a 600 quilómetros de casa

 



Devia pensar que tenho muita sorte por ter um horário de 19 horas, mesmo incompleto, porque, eu sei disso, hoje em dia trabalhar é um luxo. Mas, por agora, só consigo pensar que estou a 600 quilómetros de casa, que a minha namorada está lá, sozinha, grávida de seis meses, e que quero assistir ao nascimento da nossa filha — quero e vou assistir, tenho de conseguir, haja o que houver.

Não que isto tenha sido uma surpresa. Concorrer para todo o país, para horários completos e incompletos, foi uma decisão madura, reflectida, tomada a dois. Percebemos que o desemprego ia doer e não podíamos arriscar — principalmente agora, que, aos 39 anos, achámos que não podíamos continuar a adiar esta filha.

Por estar consciente do risco, e apesar de nunca ter ficado a mais de 60 minutos de casa, devia estar mais ou menos preparado para isto, mas não estava. Nem eu nem a minha namorada (que é como quem diz, porque é minha namorada há nove anos, só falta ir à igreja, como lembra o meu pai). Quando vimos a lista de colocações nem queríamos acreditar. No Algarve? Chorámos.

Vejo as notícias e tenho noção de que devíamos estar a pensar que tivemos muita sorte por eu ficar colocado. Afinal só foram contratados sete mil professores e eu sou um deles, não é mau, tenho muita sorte, eu sei, e todos me dizem que sim, que sou um privilegiado. Eu próprio hei-de sentir isso, quando tiver tempo, que por agora só consigo pensar que não é justo.

Nunca fomos esquisitos. A minha namorada tirou o curso de Engenharia Química à noite, a trabalhar ao mesmo tempo, e prescindiu do sonho de trabalhar nessa área, em troca de um emprego seguro. Eu, se todos os anos fiquei colocado, foi porque nunca me armei em esquisito. Este ano não fizemos férias, passámos o Verão a transformar o escritório num quarto para a Leonor e agora devíamos estar juntos, a esperar por ela, porque isso era importante e porque merecíamos, acho eu.

Agora parece a toda gente que isto era previsível, mas não era. Agora tenho de pagar a casa que está a 600 quilómetros da outra casa que vou ter de arrendar, e tenho de acabar de pagar o carro, que não me serve de muito, porque não vou ganhar para as viagens. Acho que não merecia. Apesar de ter muita sorte, eu sei.

 

Retirado do Jornal Público.

publicado por polvorosa às 19:37

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