Azáfama; grande atividade; agitação; rebuliço.

09
Jun 11

 

Fica um aviso: este é um texto longo (talvez demais para este suporte) sobre o Bloco de Esquerda, escrito por alguém que esteve profundamente envolvido na sua fundação, que foi seu dirigente e que é seu militante. Quem espera ver aqui ajustes de contas, críticas ligeiras, caricaturas ou um conjunto de frases feitas não deve ler este texto.

O Bloco de Esquerda nasceu de uma derrota: a do primeiro referendo à despenalização do aborto. A ideia de que a esquerda estava bloqueada, com um PS desistente e um PCP meramente resistente e apostado apenas na sua própria sobrevivência, mostrava a urgência de um novo partido político capaz de juntar a tradição das lutas da esquerda pela igualdade social com a defesa intransigente das liberdades individuais. Um partido que, assumindo a crítica ao "socialismo real", fosse capaz de representar uma oposição ao neoliberalismo que estivesse liberta das velhas clivagens do tempo da guerra fria. Um partido que tivesse sobre a sua vida interna esta premissa: só se bate pela democracia e pela liberdade quem a pratica em casa. Um partido que, por fim, fosse capaz de desbloquear a incomunicabilidade à esquerda.

Eram, é verdade, de características negativas (em oposição ao que existia) que resultavam de um vazio na esquerda portuguesa. Qual seria a identidade do Bloco só se veria mais tarde. Na realidade, é assim que todos os partidos nascem: ainda por fazer. Como as pessoas, quando começam a sua identidade existem apenas em potência.

Uma das diferenças do Bloco em relação a outros partidos que acabaram por não sobreviver é que nasceu de organizações já existentes. Organizações suficientemente estruturadas para garantir alguma solidez inicial e suficientemente frágeis para não o sufocar. No Bloco acabaram por desaguar correntes saídas de várias derrotas ou sem capacidade de construíram sozinhas um projeto político. Resumir o Bloco a uma aliança de grupos de extrema-esquerda não é apenas uma caricatura. Torna impossível a compreensão das suas dinâmicas internas e das suas grandes opções políticas. É compreensível que muitos ex-esquerdistas convertidos aos novos amanhãs que cantam do capitalismo selvagem (na realidade, as suas cabeças ortodoxas nunca mudaram) fiquem por aí. Não é admissível que quem quer mesmo conhecer o BE, e não apenas expiar um passado de que se envergonha, se fique por tão pouco.

Como estive muito ativo no núcleo pré-fundador do partido, e na sua fase de consolidação, posso testemunhar uma coisa: nessa fase, nunca foi o sermos "um saco de gatos" que nos assustou. Para isso havia uma receita interessante, que funcionou: manter, no início, as organizações fundadoras para que as identidades de cada uma fossem respeitadas; perder mais tempo com cada proposta programática - num processo construído por um acumular de negociação sobre a política real - do que com a guerra de trincheiras sobre cada marco ideológico; alargar a base militante do partido para que as diferenças se fossem diluindo; e manter um corpo dirigente com fortes relações de confiança. O nosso medo nunca foi essa fase inicial. Vinhamos de tantos anos de derrotas que dificilmente cometeríamos os erros do passado. Sabíamos que não teríamos mais oportunidades. O nosso medo era o que viria depois. Quando o passado de derrotas já fosse uma coisa longínqua e fossem esperadas de nós clarificação e responsabilidade. Só poderíamos ser vitimas do nosso próprio sucesso. E esse momento chegou finalmente.

Alguns dos problemas que o Bloco enfrenta são naturais: o fim da novidade e do encantamento - há sempre quem espere que os partidos sejam uma festa de esperança diária -, alguma burocratização - inevitável quando se ganha alguma dimensão - e o aparecimento de alguns carreiristas, sempre mais zelosos na defesa cega da linha oficial do que os seus principais dirigentes. Os partidos são feitos por pessoas e transportam as suas qualidades e os seus defeitos. É da vida.

Mas com estas naturais dores de crescimento vieram outras, mais graves e evitáveis.

Antes de mais, a fraca renovação da sua direção. É verdade que surgiram novas caras. Na realidade, poucos partidos se podem orgulhar de, nos últimos anos, ter oferecido à política nacional tantos quadros de qualidade. Mas as principais figuras fundadoras do partido mantiveram as rédeas do poder por demasiado tempo, selecionando dirigentes, cooptando quadros e excluindo quem estivesse irremediavelmente fora da sua órbita. Fizeram-no, digo sem qualquer cinismo, quase sempre com uma boa intenção: a de manter a unidade de um partido que vive, pela sua diversidade, sempre à beira da clivagem. Mas esta estratégia acabou por corresponder a uma divisão de poder entre as três correntes iniciais que asfixiou a democracia e a liberdade internas, garantindo uma renovação de caras mas impedindo uma renovação real da direção e excluindo uma parte razoável do partido da sua vida interna. Mais: quanto mais tarde se fizer a renovação mais difícil ela será. Sobretudo se os seus líderes são carismáticos. Muitos se chocaram quando pedi a demissão da direção. Sei que não é possível, nem aconselhável, uma renovação absoluta. Mas o choque interno que tal posição significou é, ele próprio, sinal de uma doença. Mudar de dirigentes é da natureza dos partidos. E isso acontecer num novo cilco, que é marcado quase sempre por uma derrota, é o mais natural dos acontecimentos. Ninguém está a "pedir cabeças" quando pede responsabilidade e mudança. Está a exercer o direito democrático da crítica a quem foi eleito para dirigir um partido.

Talvez por medo de abalar equilíbrios internos, talvez por incapacidade, talvez por ter nascido num tempo em que as pessoas são menos dadas ao ativismo partidário, o Bloco manteve um núcleo militante demasiado pequeno para a sua força eleitoral. Antes destas eleições, o Bloco tinha um militante por cada setenta eleitores. No PCP será de um por cada cinco. Desta escassez de militantes resultaram várias perversões: a funcionalização da vida do partido (o que no PCP aconteceu por convicção, no BE aconteceu por necessidade), a crescente centralização das decisões (que se transformou, contra todos os princípios do Bloco, numa cultura assimilada por muitos militantes) e uma cada vez maior discrepância entre o perfil político, social e ideológico dos militantes e dos eleitores. E esta pequenez cria no bloco o receio de assumir responsabilidades (faltam-lhe "tropas" que o defendam) e um desconhecimento do que é a sua rede de apoiantes e votantes.

Consciente da desadequação entre a sua militância e a sua base de apoio, a direção vive num dilema: ou fala para dentro e perde o apoio de fora ou fala para fora e desrespeita a democracia interna. O que é mais estranho é que nos últimos meses tem feito as duas coisas em simultâneo: desrespeitar a democracia interna e perder eleitores.

Sem resistência para aguentar a erosão natural de quem assume as responsabilidades do poder e sem a capacidade de organizar o protesto, o Bloco acaba muitas vezes por se limitar a ser um partido "megafone". E isso leva-o a institucionalizar-se sem nunca "correr por dentro" e a limitar-se à oposição sem chegar a conseguir "correr por fora" (socorro-me do jargão bloquista).

Até há uns meses o Bloco tinha um caminho estratégico para sair desta encruzilhada: chamou-lhe, talvez com excesso de entusiasmo, de "esquerda grande". A ideia era que partindo da sua extraordinária capacidade de atração (que fez das suas fraquezas forças) e da construção de pontes com o resto da esquerda (fruto da sua imagem antisectária) ele podia ser o pivot de uma reconstrução da esquerda, articulando bloquistas, gente nas franjas do PCP e do PS e até alguns setores internos ao Partido Socialista. Era nessa área de influência que, com outros, iria buscar as forças que a sua reduzida dimensão orgânica não lhe dá. É nesta linha de recomposição da esquerda portuguesa que surge o apoio a Manuel Alegre. Um apoio que foi arriscado e teve resultados pouco animadores. Mas que tinha um sentido estratégico.

Sabe-se que os resultados de Manuel Alegre ficaram aquém do esperado. Muitos fatores contribuíram para isso: a colagem que a esquerda fazia do candidato a Sócrates e a um governo justamente impopular, a irritação de muitos socialistas com a "traição" do seu militante e a fuga de muitos descontentes para Nobre, a aposta soarista, para um ajuste de contas, que tão desastrada se revelou. Mas o revés, aproveitado pelas correntes extremistas do Bloco, não provava o erro da estratégia de alargamento. Até porque não havia outra.

O que aconteceu depois, sabe-se. Pressionado pela má-consciência do apoio a Alegre e pela possibilidade do PCP se antecipar, a direção do Bloco entrou em versão pavloviana e decidiu avançar para uma moção de censura fora de tempo e mal preparada, que baralhou o eleitorado. Na verdade, tratou-se de um remake de um episódio passado, até nos protagonistas internos: o da Câmara Municipal de Lisboa. Depois de um esforço de alargamento e de uma política de aliança com independentes que correspondia à estratégia definida, a linha sectária (que raramente é visível no exterior, mas que consegue ter um extraordinário poder na curta estrutura do Bloco) impôs a sua vontade e contradisse a linha seguida até aí, apelando à pureza e autosuficiência do partido. Das duas vezes, agora e então, com resultados desastrosos nas urnas. Mas nem a resposta dos eleitores parece servir de lição.

Quem tem defendido que a queda do Bloco começou com as eleições presidenciais devia olhar para a evolução das sondagens. É verdade que o Bloco caiu ligeiramente nesse período (mas vale a pena ver as sondagens no dia das Presidenciais, bem acima do resultado atual). Não nego que este apoio teve o seu efeito em alguns setores do eleitorado do partido. Mas é com a moção de censura (que parecia um ziguezague), anunciada duas semanas depois, que começa a vir por aí abaixo de forma bem acentuada. Evolução que a ausência na reunião com a troika (em que o Bloco demonstrou, ao contrário de Carvalho da Silva, não compreender o estado de espírito dos portugueses) confirmou. Segundo estudos recentes, feitos para um partido político, mais de metade dos votos do Bloco foram perdidos para o PS, e muito menos para a abstenção, para a direita e para a CDU, deitando por terra a ideia de que o problema foi o desagrado com o facto do Bloco "andar de braço dado com o PS". Talvez o problema tenha sido a percepção da falta de rumo da coisa, onde a combinação Alegre/moção de censura, pelo desnorte que evidenciava, foi fatal. O que o Bloco não perdeu com o "soneto" acabou por perder com a "emenda".

Os resultados das últimas eleições foram o último aviso dos eleitores do Bloco. Ou o Bloco quer fazer a diferença e tem uma estratégia coerente para que isso aconteça ou perderá ainda mais eleitores. Mas o que está em causa é mais do que isso. Uma das razões para a sua falta implantação nacional, que lhe impede de agir no terreno e não apenas na televisão, é a de não ter influência autárquica. E vice-versa: não tem influência autárquica porque lhe faltam militantes no terreno. Só pode desatar este nó com uma política de alianças. Começando exatamente nas autarquias: apoiando listas independentes, procurando gente fora da sua área de influência e coligando-se com PS e PCP onde se encontre uma plataforma programática justa e os protagonistas certos. Mostrando a sua cultura unitária e o que vale em governo e ganhando com isso credibilidade e novos apoios, que lhe darão maior robustez. Talvez o primeiro teste à lucidez do Bloco venha mesmo nas próximas autárquicas, começando pela capital, onde corre o risco de perder o pouco que lhe sobrou.

Este resultado marcou o início de um novo ciclo. Ao contrário do que dizem os adversários do Bloco à direita, o seu papel não é ser a esquerda chique, liberal nos costumes e desistente nas questões sociais e económicas. Ao contrário do que dizem os adversários do Bloco no PS, o seu papel não é ser a sua muleta, sempre pronto para aparar os golpes de rins dos socialistas. O papel do Bloco é ocupar um espaço amplo na esquerda, que não se revê nem na ortodoxia do PCP, nem na moleza do PS, mas que quer um Bloco disponível para soluções de poder. Foi essa esperança que levou o Bloco aos dez por cento e que o poderia ter levado ainda mais longe.

Ou o Bloco se fecha na sua pequena autosuficiencia, alimentando-se de ilusões que só funcionam em circuito fechado, ou retoma a única estratégia que o fará recuperar a confiança dos eleitores. Que não está isenta de riscos, equívocos e derrotas, como se viu nas Presidenciais. Ou decide que quer ser um PCP-R (reconstruído), só que com muito menos militantes, ativistas e capacidade de mobilização, ou dá o salto para contar nas soluções. Muitos serão os que se sentirão satisfeitos com a defesa do palacete (e não da fortaleza) sitiado. Mas a derrota é certa.

Os próximos dias já deixarão claro que caminho quer seguir. Ou com o inicio de um debate interno, doloroso mas sério, que se faz, nos partidos, em congressos e convenções (já tivemos os primeiros sinais de autismo nesta matéria), ou com a cabeça enfiada na areia, esperando que a tempestade passe. Ou com um debate virado para fora e sem secretismos de tribo, que vêem a transparência como um "lavar roupa suja", ou com a exclusão silenciosa de quem se bate pelas suas convicções para defender o seu próprio partido. Ou com a assunção clara de responsabilidades, ou com uma retórica falsamente coletiva onde a responsabilidade das decisões tomadas se dissolvem no ar. Ou com a redução drástica do poder das tendências fundadoras, ou com uma das tendências a capturar um movimento que nasceu para ser plural e não uma frente de qualquer partido de vanguarda. Ou com a renovação dos seus protagonistas, ou agarrando-se todos ao poder, mesmo que o partido pague o preço da teimosia.

Os sinais teriam de surgir agora. Nada disto seria fácil ou rápido. Mas ou os eleitores percebem que os dirigentes do partido receberam o recado que lhes foi dado nestas eleições ou o Bloco aprenderá da pior forma uma regra do universo: tudo o que nasce morre. Quando? Depende da sua capacidade de adaptação e de sobrevivência de quem está em dificuldades. E seria trágico para a esquerda que o primeiro partido a conseguir furar o domínio dos quatro grandes saísse de cena por culpa própria.

visto em http://aeiou.expresso.pt

publicado por polvorosa às 22:38

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