Azáfama; grande atividade; agitação; rebuliço.

28
Abr 11

 

Senhora Govenadora Civil

Senhor Presidente da CMVA

Senhores Vereadores

Restantes Autarcas

 Senhores Representantes de Entidades Convidadas

Estimados Munícipes

Minhas Senhoras e Meus Senhores

 

O 25 de Abril era necessário ser feito e foi-o de facto. A crise mais profunda pós-25 de Abril está aí e será ultrapassada, de facto. Disso não tenho dúvidas. Porque os portugueses perante a adversidade extrema sempre reagiram bem. Somos um povo assim. Perante o abismo, por vezes, até temos o desplante de dar o passo em frente. Só isso pode explicar que perante uma das maiores crises financeiras e económicas, tenhamos tido o desplante de dar o passo em frente e lhe juntar uma outra crise: a política, deixando o resto do mundo de boca aberta. Duvido que mais algum país fizesse o que foi feito em Portugal.

 

Mas nós somos assim. Está no nosso ADN. Somos estranhamente originais e desafiadores dos nossos próprios limites. Mas também somos bons a responder sob pressão. Confiamos muito na nossa capacidade de improviso. Demasiado… direi eu. Mas, apesar de tudo, temo-nos saído bem. Foi assim nos Descobrimentos e foi assim no 25 de Abril. Dois dos mais importantes acontecimentos da nossa história pela repercussão que tiveram no Rumo do país.

 

Apesar desta crise actual, não tenho dúvidas que vivemos hoje melhor do que antes do 25 de Abril de 1974. Basta revisitarmos mentalmente a liberdade de expressão que tínhamos antes do 25 de Abril e que temos hoje, os índices de pobreza e de educação dessa altura e de agora, para chegarmos à conclusão que estamos muito melhor.

 

No entanto, pela terceira vez desde 1974, Portugal é obrigado a recorrer à ajuda externa para evitar o colapso financeiro. Portanto, "nada de novo" dirão os mais optimistas. "Catástrofe", dirão os profetas da desgraça. No entanto, alinhando pelo realismo, eu prefiro estar bem consciente das dificuldades que temos pela frente, mas que são ultrapassáveis se fizermos todos para isso. A começar pelos nossos políticos. Caso contrário, sem consensos, será o abismo social, económico e financeiro que temos à nossa frente. Só que desta vez mais um passo em frente pode ser, efectivamente, fatal… não havendo capacidade de improviso que nos valha. Por isso, basta de arrogância suicida, seja de que quadrante político ela vier.

 

É por isso que, neste contexto específico, surgem frases cada vez mais fortes e inesperadas, tais como: "precisávamos de um homem com inteligência e a honestidade do ponto de vista de Salazar, mas que não tivesse a perspectiva que impôs, que tirou todas as liberdades do povo, o direito de cidadania, de voto".

 

Sabem a quem pertence esta frase, proferida em entrevista ao Jornal de Negócios de 21 de Abril de 2011? A Otelo Saraiva de Carvalho… sim… ele… um dos capitães de Abril, que está bem consciente do período por que passamos: um período muito peculiar, difícil, mas interessante, um período, direi eu, entre a História e a Memória.

 

Ou seja, um período onde, por um lado, ainda existem adultos que vivenciaram o 25 de Abril de 1974 e tudo o que lhe foi anterior, sendo, por isso, possuidores

in vivo de uma Memória acumulada que lhe permite ter referenciais de comparação com os dias de hoje. E um período onde, por outro lado, existem adultos que não vivenciaram a revolução de Abril e tudo o que a antecedeu, vendo-a como um facto Histórico, reprodutor de referenciais in vitro. Para estes, admito que seja natural a dificuldade em imaginarem o que era viver nesse Portugal de há 37 anos:

 Onde era rara a família que não tinha alguém a combater em África;

 Onde a expressão de opiniões contra o regime era reprimida;

 Onde os partidos eram proibidos;

 Onde as prisões políticas estavam cheias;

 Onde a greve era interdita;

 Onde o poder autárquico democrático não existia;

 Onde "o pobre era pobre" porque "era pobre", ou seja, a pobreza transmitia-se inevitavelmente de pais para filhos (quem nascesse pobre arrastava para toda a vida a sua pobreza). Hoje, conforme refere um economista indiano, "o pobre é pobre porque o rico é rico" (pelo que a pobreza já não é uma inevitabilidade transmissível).

 

Há 37 anos Portugal era um país anacrónico: último império colonial do mundo Ocidental, com condenações sucessivas nas Nações Unidas. Hoje, Portugal já não é isso.

 

Melhorámos relativamente aos padrões de há 4 décadas atrás. Temos muitos e bons exemplos, oriundos de vários sectores de actividade. Devemos focar-nos neles e não estarmos constantemente, e à exaustão, a pôr em evidência as nossas fraquezas. Temos coisas boas em diversos sectores económicos de exportação, dos quais destaco a fileira florestal (onde Portugal é o nº1 mundial na cortiça e também dos mais competitivos do mundo na pasta de papel), o sector automobilístico (Autoeuropa e algumas empresas que começaram como satélites desta e que a pouco e pouco se internacionalizaram a partir da experiência adquirida), o sector das máquinas eléctricas, mecânicas e equipamento industrial, o sector do azeite (Nutrinveste, um dos principais produtores de azeite do mundo), o sector dos vinhos (Sogrape e outras médias empresas), o sector da saúde (na área da inovação, com a Bial e a Hovione), o sector das energias renováveis. Enfim, muitos outros casos de sucesso poderiam ser referenciados.

 

Mas continuamos muito dependentes do exterior. É verdade!

 

E agora também estamos dependentes do apoio financeiro internacional. É também verdade!

 

Mas temos de saber viver com isso mesmo sabendo que, com esse facto, a liberdade do país sofre tremendamente.

 

Mas…qual é a alternativa? É ficarmos orgulhosamente sós como antigamente, antes do 25 de Abril de 1974, presos por uma ditadura de direita? É ficarmos orgulhosamente sós com uma ditadura de direcção oposta?

 

Não, obrigado. Isso seria caucionar ainda mais a nossa liberdade. E ela foi uma conquista de Abril!

 

Por mim, prefiro continuar a pensar positivo, mas com realismo. Prefiro pensar que antes de o FMI chegar, a maioria das medidas que costumam integrar a receita do FMI já cá estavam. A boa notícia pode estar num pacote de contrapartidas que se revele mais suave do que as expectativas mais negras.

 

Mas não se esperem facilidades da conjuntura que vem aí.

 

De qualquer modo, se conseguimos sair de uma situação de subdesenvolvimento estrutural, como aquele que existia em Portugal antes do 25 de Abril, então quero convencer-me que conseguiremos também sair desta crise actual, e mais facilmente.

 

Nesta ordem de ideias, prefiro pensar como WACKER (1999), ou seja, "devo admitir que não tenho a menor ideia do que vai acontecer amanhã... mas existe uma coisa que eu sei. Só uma. É que o optimista terá um bom futuro, e o pessimista terá um futuro difícil. O curioso é que a mesma coisa acontece aos dois".

 

E termino com "NEVOEIRO" de FERNANDO PESSOA:

 

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,

Define com perfil e ser

Este fulgor baço da terra

Que é Portugal a entristecer –

Brilho sem luz e sem arder

Como o que fogo-fátuo encerra.

 

Ninguém sabe que coisa quer.

Ninguém conhece que alma tem,

Nem o que é mal nem o que é bem.

(Que ânsia distante perto chora?)

Tudo é incerto e derradeiro.

Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro…

 

É a Hora!

 

MUITO OBRIGADO

 

VIVA O 25 DE ABRIL 

publicado por polvorosa às 10:54
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